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União Entre os Crentes Imprimir E-mail

Meditações em Filipenses sobre este importante assunto. Originalmente publicado nos primeiros números da revista "O Caminho"

Deve nos chamar atenção a maneira como Paulo começa a sua carta aos Filipenses, pois é diferente de todas as demais. Ele diz: “Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos em Cristo Jesus, que estão em Filipos …” Até aqui, tudo igual, mas notem as próximas palavras: “…com os bispos e diáconos” ou “…inclusive bispos e diáconos”, como diz a versão Atualizada.

Porque isto? Embora possamos ver uma lição importante, de que para o me-lhor andamento de uma Igreja local é necessário ter bispos e diáconos reconhecidos, creio que não é isto que Paulo tinha em mente quando usou cuidadosamente estas palavras. Basta lermos a carta toda para ver o que ele estava pensando.

E o que era? A necessidade de união entre todos os irmãos. Este é o assunto da carta aos Filipenses, ou pelo menos um de seus temas mais destacados.

Ao olharmos para muitas das Igrejas locais nos nossos dias,vemos como estamos falhando nisto. Ao invés de união, vemos desunião; ao invés de concórdia, vemos contendas entre irmãos. Ficamos preocupados e queremos acabar com isto, mas não sabemos como. Onde encontrar a resposta?

Não há dúvida de que o Senhor sabia que haveria tais situações nas Igrejas. É só lembrar que, na primeira vez que lemos de um Igreja local no Novo Testamento, vemos um problema entre dois irmãos (veja Mat. 18:15-17).

Então, se o Senhor já havia previsto tais problemas, é lógico que Ele tem deixado nas Escrituras a solução dos mesmos. É necessário que cada irmão descubra os meios e em obediência sincera à palavra coloque em prática.

Há muito deste assunto para examinarmos no Novo Testamento, mas nós vamos nos limitar a considerar alguma coisa na carta que estamos meditando. Como já dissemos que um dos temas que Paulo aborda nesta carta é a união entre os irmãos, então é certo que ele vai nos mostrar como alcançar isto.

Olhando mais de perto para esta carta encontramos uma expressão que aparece algumas vezes: sintais o mesmo, ou tendes o mesmo sentimento. Estas palavras significam ter uma mesma disposição mental, uma mesma opinião que nos leva a uma mesma direção, um mesmo objetivo, uma verdadeira harmonia. Este é o remédio para o problema da desunião, da discórdia: todos tendo o mesmo sentimento.

Alguns, nesta altura, poderão argumentar: “Isto é impossível. Cada um de nós tem diferentes modos de pensar, somos uns diferentes dos outros. Como vamos sentir a mesma coisa? Como vamos ter a mesma opinião?

É verdade que existem estas divergências, mas será que Paulo não sabia disto? Ou melhor, será que o Espírito Santo que inspirou Paulo a escrever esta carta não sabia? Claro que sabia. Então porque Ele manda que sintamos o mesmo sabendo que somos diferentes? Certamente porque, ainda que pareça difícil termos o mesmo sentimento, isto não é impossível.

Considerando os contextos onde aparecem as expressões sintais o mesmo, podemos encontrar a resposta.

Vejamos, em primeiro lugar, o capítulo 2:2-5. No verso 2, lemos: “Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa”. A exortação continua até o verso 4, e podemos ver nestes versículos, de uma forma positiva, que o grande problema da falta de união é o”eu”. Isto é, cada um querendo que sua idéia prevaleça, achando que o seu modo de pensar é o mais correto, etc. Não é exatamente isso que Paulo manda evitar nestes versículos? Ele diz: “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade” (v3a). Fazer alguma coisa por vanglória é fazer para que o meu “eu” seja destacado, para que todos possam notar o que eu estou fazendo. Não, irmãos, esta não deve ser a nossa atitude.

Por outro lado, não devemos ficar pa-rados sem fazer nada. A orientação é: faça, mas por humildade. Tudo que formos fazer não deve ser para destacar o nosso “eu”, não deve chamar a atenção a nós, mas deve ser nossa preocupação exaltarmos o Senhor em tudo que fizermos.

Continuando, Paulo diz: “… cada um considere os outros superiores a si mesmo” (v3b). Agora vemos como devemos tratar os demais irmãos. Não simplesmente achando que somos todos iguais, que todos temos os mesmos direitos. Isto pode até ser correto aos nossos olhos, mas se estamos interessados em paz na Igreja, em verdadeira união, a exortação é: “Considere os outros superiores a si mesmo”. Ou, a mesma verdade em outras palavras, devemos nos considerar o menor entre todos os santos (Ef. 3:8).

É isto que o Senhor nos ensinou em João 13:13-17. Jesus Cristo sendo Senhor e Mestre (v14) se fez servo deixando-nos exemplo (v15), mostrando que Ele sendo o maior se fez o menor. Depois Ele disse: “Não é o servo maior que seu Senhor…” (v16). Agora notem que ensino precioso temos aqui: Quando pensamos que somos superiores aos nossos irmãos, então estamos nos fazendo superiores Àquele que se fez servo.

Irmãos, que aprendamos a considerar os outros superiores a nós, pois só assim poderemos evitar muitas contendas.

Voltando para o nosso texto em Filipenses cap. 2, no verso 4 podemos ver como na prática eu posso considerar meus irmãos superiores a mim mesmo. Ele diz: “Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros”. Eu não devo cuidar só daquilo que é do meu interesse, mas também daquilo que inte-ressa aos outros. Devo ter como objetivo o bem estar do meu irmão, ou irmãos.

E que privilégio quando agimos assim. Paulo nos mostra que quando procuramos os interesses dos outros e não os nossos próprios, quando temos este sentimento de humildade, não estamos de modo algum sendo “bobo” dos outros, mas estamos tendo o sentimento e a atitude mais sublimes que alguém já teve, pois estamos tendo o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.

Aqui está, irmãos, a solução das nossas divergências, das opiniões diferentes, dos pensamentos contrários: basta termos todos o mesmo sentimento de Cristo Jesus. Podemos afirmar que Cristo é o nosso “denominador comum”. No momento que nós deixamos o nosso “eu” e começamos a sentir como o Senhor, então sentiremos as mesmas coisas.

A outra ocorrência que vamos consi-derar é cap. 4:2-3. Estamos aqui diante de duas irmãs, Evódia e Síntique, as quais haviam trabalhado com Paulo no Evangelho (v3), mas que agora estavam tendo pensamentos diferentes, discórdia mesmo. Paulo roga então a um irmão, provavelmente Epafrodito, o portador desta carta (3:25), que as ajude a sentirem o mesmo no Senhor.

Em primeiro lugar precisamos aprender que nunca devemos dispensar ajuda de outros irmãos ou irmãs mais experientes quando estes querem nos mostrar o me-lhor caminho a seguir. Pelo contrário, devemos até procurar o auxílio deles. Quantas vezes vemos problemas entre irmãos e somos impedidos de fazer qualquer coisa para ajudar, pois um dos irmãos, ou ambos, não permitem ou não querem ser ajudados. Parece que não querem mais viver em união, preferem ficar isolados. Não deve ser assim, mas ao contrário, além de nos esforçarmos para a reconciliação, devemos aceitar com alegria toda verdadeira ajuda dos irmãos.

Outro fato que aprendemos nestes versículos é o mesmo que já temos notado no capítulo 2. Estas irmãs tinham que sentir o mesmo, mas isto no Senhor. Não era a opinião de Evódia que devia preva-lecer, nem a de Síntique, mas a do Senhor. Provavelmente uma delas tinha mais razão, mas não vemos Paulo pedindo a Epafrodito que ele investigasse quem tinha mais razão e obrigasse a outra a concordar com ela. Antes, Paulo mostra que o que devia prevalecer era o que o Senhor pensava; este era o ponto de união entre elas: sentir o mesmo no Senhor.

Temos hoje situaçãoes semelhantes na Igreja. As vezes com relação a um ensino, uma doutrina, ou como realizar um trabalho, etc. Como resolver isto?

A solução é sentir o mesmo, mas o mesmo que o Senhor sente. Em outras palavras, é ficarmos, não com a opinião de fulano, nem com a de ciclano, nem mesmo com a nossa, mas sim com a opinião das Escrituras, não importando se fulano ou ciclano é que está certo.

Com isso vemos como é necessário examinarmos com perseverança as Escrituras para não sermos enganados por homens, e para podermos saber a vontade do Senhor que Ele tem revelado na Sua Palavra.

Irmãos, é só quando todos sentimos como o Senhor sente e quando nossos pensamentos estão em harmonia com as Escrituras que estaremos sentindo o mesmo, e aí teremos uma verdadeira união. Nosso “eu”, nossos pensamentos, nossos sentimentos egoístas, só irão causar desunião e contenda entre o povo de Deus. Renunciemos a nós mesmos e vivamos a Cristo, e teremos união.

”…vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim…” (Gal 2:20). “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo sentimento e um mesmo parecer” (I Cor. 1:10). “Oh, quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união” (Sal. 133:1).

L. M. Altoé