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Oração no livro de Gênesis (III) Imprimir E-mail

“O Caminho” nº 11

Os filhos de Sete

“E a Sete mesmo também nasceu um filho, e chamou seu nome Enos; então se começou a invocar o nome do Senhor” (Gên. 4:26).

Aqui temos a primeira referência, na Bíblia, à oração verdadeira. É o primeiro exemplo positivo. Vamos ver, em primeiro lugar, o que podemos aprender sobre as circunstâncias e a condição daqueles que “invocaram o nome do Senhor”, e, depois, o que o verbo “invocar”, aqui, significa.

Quanto às circunstâncias, verificamos que Sete e seus filhos eram contemporâneos de Caim. A família humana já havia se dividido em dois ramos: um, a família de Caim, com as costas viradas para Deus, era o povo mundano e ímpio; o outro, a família de Sete, invocando o nome do Senhor, era peregrino e piedoso. Esta divisão foi causada pela inimizade de Caim para com seu irmão Abel. Sem dúvida, esta inimizade continuou até que, como Gên. 6 indica, os filhos de Deus (descendência de Sete),agora também afastados de Deus (pois a piedade não é hereditária), se casaram com as filhas dos homens (descendência de Caim).

As circunstâncias nos dias de Sete, porém, eram o resultado da separação entre os piedosos e os ímpios, e, conseqüentemente, eram dias de aflição e perseguição para os piedosos. Notamos que uma situação semelhante caracteriza o primeiro livro dos Salmos (Salmos 1–41); veja especialmente os Salmos 1 e 2.

Com respeito à condição daqueles que invocaram o nome do Senhor em tais circunstâncias, o nome que Sete escolheu para seu filho primogênito é muito significante. Enos significa “homem fraco e mortal”. Quando o homem reconhece sua fraqueza, e a brevidade da sua vida, logo irá sentir sua dependência do Senhor e a necessidade de confiar nEle.

O orgulho, que é natural ao nosso coração enganoso, normalmente cega o nosso entendimento para que, embora sendo fracos e mortais, pensemos que somos fortes e independentes, não necessitando de Deus, nem agora, nem na eternidade. Como é bom quando, despertados e instruídos pelo Senhor, reconhecendo nossa fraqueza e necessidade, começamos a invocar o Seu nome!

Agora, o que quer dizer “invocar”? Há seitas e religiões que praticam a repetição de algum nome “sagrado” nas suas devoções. De fato, existe hoje em dia uma seita que, durante parte dos seus cultos, fica repetindo o nome do Senhor Jesus Cristo. Arrancando Romanos 10:13 do contexto (“Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”) eles até afirmam que, desta maneira, pessoas serão salvas. Na verdade, o que tais religiões praticam não é “invocar”, mas sim, “entoar”. O efeito da repetição prolongada de alguma palavra ou nome, mesmo sendo o nome do Senhor, é um tipo de auto–hipnotismo. Algumas religiões chamam isto de “meditação”, e o resultado não passa de uma ilusão passageira.

Conforme os dicionários nos informam, a palavra hebraica traduzida “invocar”, em Gên. 4:26, vem duma raiz que significa “ir ao encontro de”, ou “encontrar com”, e assim, quando usada a respeito de oração, traz a ideia de buscar a presença do Senhor. Esta palavra é muito comum no Velho Testamento, ocorrendo algumas 735 vezes. Na maioria das vezes é traduzida (em nossas Bíblias) por “chamar”, “clamar” ou “invocar”. Nunca significa “entoar” ou “repetir”.

No Novo Testamento, a palavra no original grego (por exemplo, em Rom. 10:13 e I Cor. 1:2) tem um significado semelhante, sempre significando “chamar”, “clamar” ou “apelar” a uma pessoa. Geralmente o sentido é de invocar ou chamar uma pessoa a fim de ser ajudado por ela.

Assim, cada vez que encontramos a expressão “invocar o nome do Senhor” nas Escrituras, dá–se a ideia duma pessoa, ou grupo de pessoas, que, sentindo sua necessidade, fraqueza ou perigo, clamam ao Senhor, crendo que só Ele pode socorrê-las. Examine as seguintes referências na sua Bíblia: I Reis 18:24, 36, 37; I Crôn. 4:10; I Crôn. 16:18; Sal. 18:6; 80:18; 86:7; 99:6; 116:2, 13, 17; 145:18; Isa. 12:4; Lam. 3:57; Joel 2:32; Atos 7:59.

Finalmente, vamos considerar alguns exemplos bíblicos. Em Rom. 10:12–14 vemos que, quando o ouvinte da palavra de Deus ouve e crê, “invocar o nome do Senhor” é sua reação, e fazendo isto ele “será salvo”. É importante notar a ordem nestes versículos:

1) A invocação do nome do Senhor é o resultado de crer;

2) Crer é o resultado de ouvir;

3) Ouvir é o resultado da pregação da Palavra;

4) Pregação é o resultado do pregador ser enviado por Deus (não meramente convidado pelos homens).

Este “clamor ao Senhor” não é somente do indivíduo, mas também pode ser coletivo . Em I Cor. 1:2 lemos de “todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso”. Aqui verificamos que invocar o nome do Senhor é uma característica de toda igreja verdadeira. Desde a ascensão de Cristo, oração normalmente dirige–se ao Pai — mas sempre em nome do Filho. Quando Saulo de Tarso ainda era perseguidor, ele procurava destruir “os que invocam este nome” (Atos 9:14, 21). Isto explica a importância das instruções que Ananias lhe deu, logo depois da sua conversão: “Levanta–te, e batiza–te, e lava os teus pecados, invocando o nome do Senhor” (Atos 22:16). Sendo batizado, e invocando publicamente o nome dAquele cujo povo ele perseguia, ele seria abertamente purificado da vergonha das suas antigas atividades, perante os olhos e ouvidos de todos.

De fato, esta invocação do nome do Senhor é a marca do povo de Deus em todos os tempos, mostrando a diferença entre eles e as nações dos ímpios, como nos dias dos filhos de Sete. Antes de Cristo: “Acaso não têm conhecimento estes obreiros da iniquidade? … Eles não invocam a Deus”; “Derrama o Teu furor sobre … os reinos que não invocam o Teu nome”; mas “não nos iremos de após Ti; guarda–nos em vida, e invocaremos o Teu nome” (Sal. 53:4; 79:6 e 80:18). E depois de Cristo, é a base de toda comunhão cristã: “Segue a justiça, a fé, o amor, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor” (II Tim. 2:22).

Na grande tribulação, o remanescente também invocará Seu nome: “Farei passar esta terceira parte pelo fogo … ela invocará o Meu nome, e Eu a ouvirei; direi: É Meu povo; e ela dirá: O Senhor é o meu Deus” (Zac. 13:9). E no reino glorioso do Rei dos reis e Senhor dos senhores, esta invocação será finalmente universal: “Porque então darei lábios puros aos povos, para que todos invoquem o nome do Senhor, para que o sirvam com um mesmo espírito” (Sofonias 3:9). É claro que, naquele dia, não será mais o clamor do aflito ou necessitado, mas sim, dos verdadeiros adoradores, adorando ao Senhor em espírito e em verdade.

Infelizmente, acontece muitas vezes que até o povo de Deus perde esta marca de distinção, como Isaías diz: “Já ninguém há que invoque o Teu nome, que desperte, que Te detenha; porque escondes de nós o Teu rosto e nos fazes derreter, por causa das nossas iniquidades” (Isa. 64:7). Oxalá que em nossos dias, reconhecendo que somos como Enos — fracos e mortais — e que precisamos, cada vez mais, do Senhor, e que sem Ele nada podemos fazer, que possamos, com fé não fingida, clamar ao Senhor, pois Ele tem prometido, em Jer. 29:12: “Então me invocareis, e ireis, e orareis a Mim, e Eu vos ouvirei”.

T. J. Blackman