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“O Caminho” nº 11

Um mal invadiu o reino professo de Deus, tão flagrante em sua irreverência que até os mais míopes podem percebê–lo. Durante os últimos anos tem desenvolvido numa velocidade espantosa, operando como fermento, para que toda a massa seja levedada. Poucas vezes o diabo tem feito algo tão astuto quanto agora, sugerindo à Igreja que parte de sua missão é providenciar entretenimento para o povo, a fim de ganhá–lo. Deixando de acusar abertamente como os puritanos, a Igreja começou a diluir seu testemunho, até chegar ao ponto de fazer vistas grossas e desculpar as coisas frívolas destes dias. Depois, tolerou estas coisas em suas fronteiras. Agora ela adotou–as, com a desculpa de atingir as multidões.

Minha primeira crítica é que, providenciar diversão para o povo não é, em qualquer lugar das Escrituras, descrito como uma função da Igreja. Se fosse um trabalho cristão, então porque Cristo não mencionou isto? “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura” (Mar. 16:15). Isto é claro. Também seria se Ele tivesse acrescentado, “e providenciai entretenimento para aqueles que não apreciam o Evangelho”. Tais palavras, porém, não são encontradas. Parece que Ele nem pensou nesta hipótese. Além disto, lemos: “E Ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Efé. 4:11). Onde estão os divertidores? O Espírito Santo se mantém calado quanto a eles. E os profetas, foram perseguidos por que divertiam o povo, ou porque recusavam fazê–lo? O concerto músico não possui lista de mártires.

Além disto, providenciar diversão contradiz todo o ensino e a vida de Cristo e de todos os Seus apóstolos. Qual era a posição da Igreja frente ao mundo? “Vós sois o sal” (Mat. 5:13), não o açúcar — algo que o mundo irá cuspir fora, não engolir. A afirmação do Senhor, “Deixe aos mortos sepultar os seus mortos” (Mat. 8:22) foi curta e enfática. Ele estava falando sério!

Se Cristo tivesse apresentado coisas mais alegres e agradáveis em Sua missão, Ele teria sido muito mais popular do que quando Seus discípulos O abandonaram, por causa das palavras penetrantes do Seu ensino (João 6:60, 66). Mas eu não O ouço dizer, “Corra atrás destas pessoas, Pedro, e diga–lhes que amanhã nossa reunião será diferente, mais breve, mais atraente, com pouca pregação. Teremos uma reunião agradável para as pessoas. Diga–lhes que certamente irão apreciar. Seja rápido, Pedro, nós temos que alcançar as pessoas de qualquer maneira!” O Senhor Jesus tinha pena dos pecadores, se entristecia e chorava por eles, mas nunca procurou diverti-los. As epístolas serão examinadas em vão se você procura algum indício do entretenimento evangélico. Sua mensagem é clara: “Saia, permaneça fora, permaneça completamente fora!” Qualquer coisa que se as-semelha ao humor se destaca pela sua ausência.

Os apóstolos possuíam uma confiança ilimitada no evangelho, e não usavam qualquer outra arma. Depois que Pedro e João foram presos por pregar, a Igreja teve uma reunião de oração (Atos cap 4; veja especialmente vs. 29–31); mas eles não oraram, “Senhor, concede aos Teus servos que, pelo uso sábio e controlado de recreações inofensivas, possamos mostrar a este povo quão felizes nós somos”. Como não cessaram de pregar a Cristo, não tinham tempo para organizar entretenimentos. Espalhados pela perseguição, foram por todos os lados pregando o evangelho. Eles alvoroçaram o mundo (Atos 17:6). Foi “só” isto que fizeram de diferente. Senhor, purifique a Igreja de todo o lixo e podridão que o diabo tem imposto sobre ela, e traga–nos de volta aos métodos apostólicos.

Finalmente, a missão de divertir não consegue produzir o efeito desejado. Provoca terríveis estragos no meio dos novos convertidos. Que os descuidados e zombadores, que agradecem a Deus porque a Igreja lhes fez concessões, falem e tes-tifiquem! Que os angustiados, que acharam paz por meio dos corais, não permaneçam calados! Que os viciados, para quem os filmes e peças dramáticas foram o elo de Deus na corrente de suas conversões, se levantem! Ninguém há que responda.

A missão de divertir não produz conversões verdadeiras. A necessidade urgente para o ministério nos nossos dias é estudo fiel, unido a espiritualidade sincera, um emanando do outro, como o fruto da raiz. A necessidade é de ensino bíblico, entendido e assimilado de tal maneira que incendeie os homens.

C. H. Spurgeon