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“O Caminho” nº 11

Pergunta: Nos Evangelhos de Mateus e Marcos, parece que o Senhor participou da Páscoa, e logo em seguida instituiu a Ceia do Senhor. O relato termina dizendo: “Tendo cantado um hino, saíram para o Monte das Oliveiras” (Mat. 26:17–30 e Mar. 14:12–26). No Evangelho de João, outras coisas são mencionadas, tais como o lava–pés e o discurso do Senhor Jesus. Onde se encaixam estas coisas?

Resposta: Os Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) apresentam um relato mais simples dos acontecimentos daquela noite memorável. Mostram que o Senhor participou da Páscoa e, em seguida, instituiu o Partir do Pão. João nos apresenta mais detalhes. Uma comparação dos quatro Evangelhos sugere a seguinte ordem:

1. O Senhor e os apóstolos se reúnem no cenáculo para celebrar a Páscoa (Mat. 26:20; Mar. 14:17, 18; Luc. 22:14, 15; João 13:1).

2. O Senhor lava os pés aos discípulos (João 13:4:11).

3. O Senhor assenta–se novamente à mesa (João 13:12).

4. Judas é identificado como o traidor e se afasta (João 13:21–30; compare com Mat. 26:21–25 e Mar. 14:18–21).

5. O Senhor institui o Partir do Pão (Mat. 26:26–28; Mar. 14:22–24; Luc. 22:19–20).

6. O Senhor fala aos onze o ora ao Pai (João 13:31 – 17:26).

7. O Senhor sai com os onze e vai para o Jardim de Getsêmane (João 18:1).

Pergunta: Algumas denominações praticam literalmente o lava–pés (João 13:4–17), julgando que isto é um mandamento do Senhor (João 13:15). É correto fazer assim?

Resposta: Depois de lavar os pés aos discípulos, o Senhor Jesus assentou–se novamente à mesa e disse–lhes: “Eu vos dei o exemplo, para que, como Eu voz fiz, façais vós também” (v. 15). Uma leitura superficial desta passagem levou alguns a pensar que o Senhor quer que lavemos os pés, uns aos outros, em água. Praticam o “lava–pés” com sinceridade.

Se, porém, considerarmos o contexto, veremos o que o Senhor realmente disse, e perceberemos que não é a Sua intenção que lavemos literalmente os pés uns aos outros. Ele quer, sim, que façamos o que Ele fez (v. 15).

Quando Pedro perguntou a respeito daquilo que o Senhor estava fazendo, o Mestre disse: “O que Eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois” (v. 7). Note a expressão “o que Eu faço”, e compare com o v. 15. Aquilo que Ele quer que nós façamos (v. 15) é o mesmo que Ele fez, ou seja, aquilo que Pedro não estava sabendo. Ora, Pedro sabia perfeitamente que o Senhor ia lavar–lhe os pés, mas havia um significado espiritual naquele ato que Pedro não sabia àquela altura; saberia depois.

Veja também como o Senhor perguntou aos discípulos: “Entendeis o que vos tenho feito?” (v. 12). Ele não estava instituindo uma cerimônia, mas sim ensinando uma lição espiritual, e queira que entendessem seu significado.

O fato de que os Atos dos Apóstolos não registra nem mesmo um exemplo de tal cerimônia, e as epístolas não trazem uma exortação para assim fazer, confirma o que o contexto imediato mostra. O Senhor não mandou que lavássemos os pés uns aos outros em água, mas que fizéssemos como Ele fez. Pedro, e os demais, não sabiam o que era, mas saberiam depois.

O significado daquele ato que o Senhor praticou é realmente importante. Ele disse: “Se Eu não te lavar, não tens parte comigo … Aquele que está lavado (banhado) não necessita de lavar senão os pés, pois no mais está limpo” (vs. 8,10). Estas palavras são claras e solenes. Sem o lavar dos pés, o discípulo não teria parte com Cristo. Note bem que o Senhor não disse que não teria parte “em Mim”, mas sim, “comigo”. É uma questão de comunhão. Aquele que é banhado, e, portanto, limpo, ainda necessita deste lavar para manter–se em comunhão com o Senhor.

A figura seria facilmente compreendida pelos discípulos. Conheciam os banhos públicos, e sabiam que, ao retornar para casa depois do banho, seria necessário lavar os pés novamente, devido à poeira da rua. Assim acontece na experiência do cristão. Ele está banhado, purificado pelo sangue do Cordeiro, e nada poderá separá–lo do amor de Deus. Na sua caminhada através deste mundo, porém, ele está em contato com “a poeira da rua”, isto é, ele ouve e vê as imundícias do pecado, e descobre que dentro dele ainda há uma natureza que corresponde ao pecado. Ele necessita de uma purificação diária, constante, para manter comunhão com Cristo. O pecado não pode separá–lo do Salvador, mas impede a sua comunhão com Ele.

Esta purificação é feita “com a lavagem da água, pela palavra” (Efé. 5:26). É isto que o Senhor mandou–nos fazer em João 13. Lavar os pés uns aos outros é admoestar–nos uns aos outros (Hebs. 10:25).

A purificação pelo sangue (uma vez por todas) e a purificação pela água (repetida constantemente) são prefiguradas no Velho Testamento. Para entrar na presença de Deus, no lugar santo, o sacerdote teve de passar pelo altar de bronze (purificação pelo sangue) e também pela pia (purificação pela água).

R. E. Watterson