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Oração no livro de Gênesis (IV) Imprimir E-mail

"O Caminho" nº12

Abraão

Como crente, Abraão é “pai de todos nós” (Rom. 4:16). Fortalecido na sua fé no Todo-poderoso — nAquele que “vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem” — Abraão expressou, muitas vezes, esta fé pelas palavras que ele dirigiu a Deus. Catorze capítulos do livro de Gênesis (12-25) são ocupados com a vida de Abraão. Cada uma das expressões da sua confiança e dependência de seu Deus merece um artigo, mas vamos nos contentar aqui com um pequeno esboço das orações de Abraão.

1) Oração é Necessidade do Peregrino e Privilégio do Sacerdote (12:8 e 13:4)

Um servo de Deus, viajando no estrangeiro, escreveu: “Numa terra estrangeira aproximamo-nos ainda mais de nosso Deus. É só Ele que conhecemos aqui. Chegamo-nos a Ele como alguém que bem conhecemos, quando tudo mais é estranho” (R. M. M’Cheyne). A situação de Abraão, porém, era um pouco diferente. Ele era estrangeiro, mas numa terra que Deus havia prometido a ele e à sua descendência.

Não havia temor de Deus naquele lugar, mas, armando sua tenda e edificando seu altar, Abraão demonstrou as características de alguém que, pela fé, tinha obedecido o chamamento divino e “esperava a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Heb. 11:10).

A tenda é sinal do peregrino. É uma habitação provisória, usada durante a viagem, até chegar à sua morada permanente e eterna. Abraão, junto com Isaque e Jacó, sempre morou em “cabanas”, mesmo na terra prometida.

O altar é sinal do sacerdote. Embora peregrino e forasteiro na terra, ele tinha acesso ao céu, e invocou o nome do Senhor.

Nestas duas coisas, temos os dois lados da vida cristã (veja I Ped. 2:5, 11); somos forasteiros num mundo hostil e, ao mesmo tempo, sempre bem-vindos na presença de Deus. Como peregrino, Abraão era necessitado e vulnerável, mas pela oração ele correu à torre forte do nome do Senhor, e assim estava “em alto refúgio” (Pr. 18:10). Como sacerdote ele ofereceu sacrifícios agradáveis a Deus, invocando aquele nome que é como “unguento derramado” (Cant. 1:3).

2) A Oração de um Bom Soldado de Jesus Cristo (14:22, 23)

Em Gên. 14, temos a primeira batalha registrada na Bíblia. Era normal aproveitar os despojos de guerra, como os amalequitas em I Sam. 30:16, “comendo, e bebendo, e dançando, por todo aquele despojo que tomaram da terra dos filisteus e da terra de Judá”. Mas, ao ganhar a vitória e libertar Ló, seu parente, Abraão levantou sua mão ao Senhor, e jurou que “desde um fio até a correia de um sapato, não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu [do rei de Sodoma]; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão”. O povo de Deus nos dias de Ester seguiu o mesmo exemplo: destruíram os seus inimigos, “porém ao despojo não estenderam a sua mão” (Est. 9:10). Pela fé Abraão ganhou duas vitórias naquele dia; não somente destruiu os quatro reis, mas também resistiu à tentação do rei de Sodoma.

Logo Melquisedeque, rei de justiça e de paz (veja Heb. 7), saiu ao seu encontro, trazendo pão e vinho e abençoando-o em nome do Deus Altíssimo, Possuidor dos céus e da terra. Quem renunciar às vantagens e prazeres do mundo (embora sendo coisas legítimas) por amor do nome do Senhor, terá muitas vezes mais, tanto nesta vida quanto no porvir (Mat. 19:29).

3) Perguntas e Perplexidades (15:2, 8)

Aqui vemos a diferença entre o temor de Deus e o medo ou timidez. Houve uma ocasião quando os discípulos temiam interrogar o Senhor acerca das Suas palavras (Luc. 9:45), mas não deve ser assim. Abraão não estava entendendo como Deus cumpriria Suas maravilhosas promessas. Com reverência, ele levou suas dúvidas ao Senhor, que prontamente respondeu, confirmando Sua promessa e aliança com Abraão. O resultado foi que o patriarca “creu … no Senhor, e imputou-lhe isto por justiça”.

A Bíblia nos incentiva a fazer a mesma coisa: “Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” (Tia 1:5). Uma das petições mais comuns no livro dos Salmos é “ensina-me Senhor”. J. N. Darby disse: “Se esperarmos com paciência no Senhor, toda a dificuldade da Bíblia será transformada em entrada de luz e bênção”. Todos têm dúvidas ou perplexidades. Se guardarmo-las conosco, elas irão destruir nossa vida espiritual; se induzirem-nos a procurar humildemente a orientação e instrução do Senhor, continuaremos a andar na Sua presença e Ele se agradará de nós.

4) Oração pela Bênção de Deus sobre seus Filhos (17:18)

Deus havia prometido ricas bênçãos para Isaque (17:16), mas Abraão desejava que todos os seus filhos fossem abençoados por Deus — Ismael também! Ele disse a Deus: “Quem me dera que viva Ismael diante de Teu rosto!”, e sua oração foi respondida. Devemos orar sem cessar pela verdadeira conversão de nossos filhos, para que sejam “como plantas de oliveira à roda da tua mesa” (Sal. 128:3).

5) A Prontidão do Servo (18:3)

“E disse: Meu Senhor … teu servo”. Abraão não estava dormindo no calor do dia, mas assentado, atento, à porta da tenda, aguardava uma oportunidade para servir. Vendo três homens em pé junto a ele (um dos quais era o Senhor), ele “correu” (v. 2), “apressou-se” (v. 6), “correu” (v. 7), para atendê-los; e, enquanto seus hóspedes celestiais comiam, “ele estava em pé junto a eles debaixo da árvore” (v. 8), pronto para atendê-los. Cantamos muitas vezes: “Ó Senhor, eu sou Teu servo” — que sejamos como Abraão, que disse “teu servo”, e O serviu com diligência!

6) Intercessão pelos Santos (18:23-33)

Quando Abraão intercedeu por ele, Ló já tinha separado dele, tinha abandonado a tenda do peregrino, e estava morando num lugar onde Abraão nem entraria. Uma coisa que está muito em falta hoje em dia é o ministério de intercessão. O fato de haver tantos crentes mundanos, separados e afastados, não deve impedir nossas orações, mas ao contrário, deve incentivar-nos a interceder por eles com cada vez mais urgência e fervor. São os crentes fracos, afastados e mundanos, que precisam das intercessões.

7) Intercessão pelos Incrédulos (20:7, 17)

É interessante que a primeira vez que lemos de um profeta na Bíblia (aqui em 20:7), ele não está profetizando, mas sim, intercedendo, e isto a favor dos incrédulos. Cremos que o dom de profecia já cessou nas igrejas, sendo a revelação do Novo Testamento completa. Este ministério do profeta, porém, de interceder em favor dos outros, nunca deve cessar. De fato, deve ter prioridade, como Paulo diz em I Tim. 2:1: “Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens”.

8) Orar por Proteção contra Perseguição (21:33)

Depois de fazer as pazes com o filisteu Abimeleque, lemos, mais uma vez, que Abraão invocou o nome do Senhor. Tempos de perseguição e oposição não favorecem piedade, nem evangelismo; por esta razão devemos orar “pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” (I Tim. 2:2).

9) Apresentando-se ao Senhor (22:1)

“Eis-me aqui”. Estas são as últimas palavras dirigidas a Deus por Abraão, que se encontram no livro de Gênesis. Expressam submissão total à vontade do Senhor. Ele estava pronto, seja para sofrer, ou para servir, seja para ser provado, ou para ser abençoado, seja para prosperar, ou para ser perseguido. Logo ele ia passar pela maior provação de sua vida, porém não reclamou, nem hesitou, mas se levantou de madrugada, tomou consigo Isaque, e foi ao lugar que Deus lhe dissera. A operação da graça de Deus em nossas vidas deve produzir a mesma atitude: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos, em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rom. 12:1).

Se os mundos fossem todos meus,
Fariam mui pobre oblação;
Oh, estupendo amor de Deus!
Dou vida, tudo, em gratidão!

T. J. Blackman