Início O Caminho Lições práticas do Cântico dos Cânticos (III)
Lições práticas do Cântico dos Cânticos (III) Imprimir E-mail

"O Caminho" nº13

Vendo a plena satisfação da esposa no final da primeira parte deste livro (1:2 - 2:7), e ouvindo a ordem do amado para que ninguém a despertasse, até que ela quisesse, poderíamos pensar que esta comunhão duraria para sempre. É com surpresa, quase com espanto, porém, que vemos, no início desta segunda parte, que há uma separação; a comunhão está novamente perdida (2:8).

Surpreende-nos esta mudança.

Quando olhamos, porém, para a nossa própria experiência, vemos um paralelo impressionante. O Senhor nunca interrompe a comunhão conosco, nem permite que outros a interrompam, mas quantas vezes nós mesmos nos afastamos dEle, perdendo a comunhão que tanto apreciamos!

Desejos de Restauração

No começo deste livro, a esposa sentiu falta da presença do amado, mas agora é diferente. É o amado que sente a falta. Ele vem saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros (2:8). Mais tarde ela sente saudades dele (veja 2:17 - 3:3), mas é importante que observemos como ele sentiu primeiro do que ela. Os sentimentos dela, descritos em 2:17 - 3:3, correspondem aos do início do livro (1:2-7).

Tudo isto tem lições solenes para nós. Em primeiro lugar, aprendemos que, quando nos afastamos do Senhor, Ele sente isto muito antes do que nós, e muito mais do que nós. Aprendemos, também, que embora somos nós que interrompemos a comunhão, é sempre Ele que toma a iniciativa de buscar a restauração.

O Esforço do Amado

As figuras empregadas no v. 8 sugerem rapidez e grande esforço, frutos dum grande desejo. Ele vem saltando sobre os montes e pulando sobre os outeiros. Ele se aproxima daquela que se afastou. Ele se esforça, qual Bom Pastor que busca a ovelha perdida (Luc. 15:4). Encontra, porém, barreiras!

Há paredes, janelas e grades que o separam daquela que ele procura. E ela reconhece que as barreiras são dela! Ela fala da “nossa parede” (2:9). Aquilo que significava segurança e conforto para ela, constituiu para ele uma barreira. Impediu a sua aproximação. Antes ela achava segurança e conforto no amado (2:3, 4), mas agora descansa na proteção da casa.

Quando aplicamos isto à nossa experiência, reconhecemos que muitas vezes deixamos de confiar no Senhor, preferindo a “segurança” e “conforto” de coisas materiais. O resultado inevitável é a perda de comunhão com o Senhor. Leia Mat. 6:19-34.

A Razão da Interrupção

A ênfase dada à mudança de estação (2:11- 13) parece indicar que ela se afastou dele para evitar as chuvas frias e os rigores do inverno (2:11). Agora, ele avisa que tudo isto passou, e cedeu lugar às atrações da primavera: as flores, o canto dos passarinhos e as frutas e aromas das árvores.

Quantas lições claras e solenes há para nós neste quadro! Ela não estava disposta a suportar os rigores do inverno por amor dele, mas os suportou para servir aos outros (1:5-6)! E quantas vezes, irmãos, nós demonstramos a mesma atitude! Fazemos para os outros o que não fazemos para o Senhor. Considere os seguintes casos hipotéticos.

Um irmão nunca chega atrasado na fábrica, mas habitualmente chega atrasado às reuniões. Outro perde uma reunião porque chegou visita em casa, mas nunca perderia um dia de serviço porque parentes chegaram para visitá-lo. Numa noite de chuva e vento frio, a irmã não foi à reunião, mas no dia seguinte, ainda com chuva e frio, ela chegou pontualmente ao escritório. O jovem cristão obedece o professor na escola, ou o superior na firma, mas recusa obedecer partes da Palavra de Deus.

Irmãos, quantas vezes fazemos para o nosso semelhante o que recusamos fazer para o nosso Senhor. Podemos estranhar, então, a falta de comunhão verdadeira com o Senhor?

Convite à Comunhão

Ela afastou-se dele, mas ele a amava ainda. Ele a atraia com palavras agradáveis, que confirmavam seu amor: “amiga minha, formosa minha” (2:10).

Junto com estas palavras de amor, ele pede um esforço: “Levanta-te … e vem”. A restauração da comunhão entre o cristão e o Senhor sempre exige um esforço. Já observamos isto na primeira parte do livro (1:8), mas devido à sua importância, a lição se repete aqui.

Mas ela não quis sair de casa. Ele queria ver a sua face; queria ouvir a sua voz; queria a companhia dela no seu serviço (2:14-15), mas ela estava tranqüila em casa, satisfeita com a segurança e conforto dados pelas barreiras que impediram a aproximação do Amado.

E ele se retirou.

A Busca da Comunhão

Começa Ela estava tão tranquila naquela casa, mas sentia falta do amado. Ela sabia que ele estava apascentando seu rebanho entre os lírios, mas queria que ele deixasse este trabalho para vir a ela (2:16, 17).

Mas Ele não veio.

Talvez podemos aprender aqui porque muitas das nossas orações não são respondidas da maneira que queremos. Mesmo quando queremos a presença de Deus entre nós, muitas vezes parece que Deus não ouve. A razão é o nosso próprio comodismo.

Ela não foi quando ele chamou (vs. 10, 13); ela não queria ir a ele, mas queria que ele viesse a ela. Muitas vezes, não estamos dispostos a sair do nosso comodismo, dos nossos caminhos materialistas e mundanos, e queremos ainda a presença do Senhor nas nossas reuniões. Mas Ele não virá participar conosco no nosso comodismo; temos de levantar e sair dele para encontrar com Ele.

Ela começou a sua busca na cama, mas não o encontrou. Sem esforço, a comunhão jamais será restaurada. É necessário deixar o comodismo e descanso (simbolizados pela cama) e realmente procurar o Senhor.

Na Cidade

Finalmente, ela se levanta (3:1). Teria sido muito mais fácil encontrá-lo quando ele estava “detrás da nossa parede” (2:9), mas agora ela não sabe onde ele está; além disto, já é noite. Ela perdeu a comunhão por não estar disposta a enfrentar os rigores do inverno; agora, para redescobrir a comunhão, ela enfrenta o frio e os perigos da noite (3:1-3). Ela não quis pagar o preço; agora, porém, tem que pagá-lo.

Ela deixou seu comodismo (a cama) e sua confiança na casa. Queria, a qualquer custo, encontrar com seu Amado. Mas não o encontrou na cidade. Os guardas também não a ajudaram. Era necessário deixar tudo (a cama e a casa) e todos (a cidade e os guardas), e sair sozinha à procura do amado.

Restauração

“Apartando-me eu um pouco deles, logo achei aquele a quem ama a minha alma” (3:4). Irmãos, o caminho à presença de Deus é sempre o mesmo. Separando-nos de tudo e de todos, para buscá-lo de todo o coração, logo O encontraremos.

Esta parte do livro termina com as mesmas palavras que encerram a primeira parte. O Senhor manda solenemente que ninguém desperte aquela que está tão feliz na Sua presença, “até que (ela) queira”.

R. E. Watterson