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Lições práticas do Cântico dos Cânticos (V) Imprimir E-mail

"O Caminho" nº15

Leitura: Cantares de Salomão 5:2 - 6:10

Nesta parte do livro vemos a comunhão interrompida outra vez!

Que surpresa! A comunhão tão doce e profunda que ela desfrutava, no capítulo anterior, nos levaria a pensar que nunca mais se afastaria do amado. Por outro lado, não podemos nos surpreender com isto, pois a experiência dela, nesta parte do livro, reflete fielmente a nossa própria inconstância. Mesmo conhecendo a alegria de comunhão com o Senhor, quantas vezes nos desviamos dEle.

Convém lembrar, porém, como já observamos nestes estudos, que o Senhor nunca interrompe a comunhão, e nem permite que outros a interrompam. Cada vez que perdemos a comunhão com o Senhor, a culpa é exclusivamente nossa (veja 2:7; 3:5; 8:4).

A Causa da Interrupção (5:2-5)

Na segunda parte deste livro (2:8 - 3:5), vimos que ela perdeu a comunhão porque não estava disposta a enfrentar os rigores e perigos do inverno, mas agora ela a perde porque não está disposta a deixar o conforto e o amor-próprio. Enquanto o amado estava lá fora com a cabeça cheia de orvalho e com os cabelos molhados com as gotas da noite, ela estava dormindo (5:2). Quando o amado chamou, ela não levantou; não quis ter o trabalho de se vestir, nem quis sujar seus pés (5:3). Nisto vemos a atitude de muitos cristãos; querem a comunhão com o Senhor, mas não estão dispostos a pagar o preço que a comunhão exige. “Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (I João 2:15). Não podemos desfrutar de comunhão com o Senhor enquanto amamos o mundo.

Insensível

Ela diz que seu coração velava; ela fala de seu “amado” (5:2); mas, na realidade, ela estava insensível. A cabeça dele estava cheia de orvalho, pois ele não tinha abrigo, nem descanso do seu trabalho, mas ela estava tão indiferente às durezas que ele suportava. Ela estava mais preocupada consigo mesma.

Quantas vezes, irmãos, detectamos a mesma insensibilidade nos nossos corações! Não havia lugar para o Senhor neste mundo; foi lançado fora, e até hoje é rejeitado. Para Ele, não há lugar nem descanso aqui, mas quantos cristãos procuram uma posição neste mundo, e jamais pensam em abrir mão do seu descanso e lazer para buscar ao Senhor. Podemos nos admirar se não conhecemos comunhão mais íntima com Ele?

Laodicéia

A igreja em Laodicéia vivia a mesma insensibilidade (Ap. 3:14-22). O Senhor estava batendo à porta; Ele estava do lado de fora, e a igreja não percebeu, nem sentiu sua verdadeira condição. Não sabia que era “desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu”. É uma condição lastimável, porém tão comum em nossos dias. Quantos têm perdido a comunhão com o Senhor, e ainda nem perceberam a falta! Mas o Senhor disse à igreja em Laodicéia: “Se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele, e ele comigo”.

A Demora

Em Cantares, a esposa ouviu a voz do amado, mas demorou-se em abrir a porta. Pensou no “trabalho” de vestir-se, e não queria sujar os pés. Imagine, sujar os pés naquele ambiente de conforto e luxo! Ela queria a presença do amado, mas queria também seus confortos. Sabia que ele a chamaria para sair, e ela não estava disposta a fazer este sacrifício.

Irmãos, quando lembramos que Ele disse: “Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mr. 8:34), podemos entender porque temos tão pouca comunhão com Ele. Para ter a consciência da Sua presença no nosso viver, há um preço elevado a pagar.

Quando ela finalmente levantou-se para abrir a porta, já era tarde. Em nada adiantou o perfume da mirra que destilava das suas mãos, e gotejava dos seus dedos. O amado já tinha se retirado (v. 6).

Quanto tempo perdemos, irmãos, ocupados conosco mesmos, em vez de ocupar-nos com Ele. Talvez estejamos ocupados conosco mesmos, tentando tornar-nos mais atraentes a Ele, mas não são os nossos méritos que garantem a comunhão, e sim ocupação com Ele. Quantas igrejas perdem tempo com ensaios e apresentações para agradar ao Senhor, e não percebem que não é isto que Ele quer, mas sim a nossa ocupação com Ele.

A Busca da Restauração (5:5 - 6:3)

O caminho que leva à comunhão com o Senhor é sempre o mesmo. Ela se levantou (v. 5), e buscou (v. 6), e chamou (v. 6). Compare as ocasiões anteriores (1:7-8; 3:1-3). Ele não foi encontrado por meio do perfume da mirra, mas sim por uma busca sincera. O primeiro passo na restauração é sempre este: despertar para buscar a Sua presença.

Mas não é uma busca fácil. Ela chamou, mas ele não respondeu (v. 6). Quando ele chamara (v. 2), ela não atendeu; agora ela chama em vão. Talvez isto explica porque muitas vezes o cristão ora, mas Deus não responde.

O segundo passo é ocupação com ele. Até agora ela estava ocupada consigo mesma; ela falava de “meus vestidos” e “meus pés” (v. 3), de “minhas mãos” e “meus dedos” (v. 5). Agora, do v. 6 em diante, ela está falando do amado; está ocupada com ele. Ela busca o amado (v. 6-9) e fala dele (v. 10-16).

Nesta busca, ela perdeu o que antes era importante, e impedia a sua comunhão. Demorou em abrir a porta para o amado, pois não queria o trabalho de vestir-se (v. 3); agora perde o manto (v. 7). Ela não quis sujar os pés na casa, mas sem dúvida os sujou nas ruas, buscando o amado. Nada disto, porém, podia impedir-lhe agora. Buscava de coração o amado.

O Amado

A descrição do amado (v. 10-16) apresenta, em linguagem figurada, as excelentes glórias da sua pessoa. Durante toda a eternidade, estaremos ocupados com nosso Amado, aprendendo o que está oculto nestas figuras, e repetiremos eternamente, e com uma convicção sempre crescente: “Sim, Ele é totalmente desejável. Tal é o meu Amado” (v. 16). Que possamos ocupar-nos mais e mais com Ele agora, para que possamos apreciá-lO mais e falar melhor aos outros das Suas perfeições e belezas.

Outro Passo

Há ainda um terceiro passo na busca da comunhão com o Amado. A esposa disse: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu” (6:3). As palavras são as mesmas que ela usou em 2:16, mas a ordem é invertida; e esta inversão fala muito aos nossos corações. Em 2:16, ela coloca em primeiro lugar os direitos e os privilégios dela mesma, dizendo primeiro: “meu amado é meu”. Agora ela fala primeiro dos direitos dele, dizendo: “eu sou do meu amado”. Mostra uma submissão completa à vontade dele. Que nós lembremos da Escritura que diz: “Não sois de vós mesmos, porque fostes comprados por bom preço” (I Cor. 6:19-20). Gostamos de desfrutar dos privilégios que temos porque Cristo é nosso — nosso Salvador, nosso Bom Pastor, nosso Sacerdote, etc., mas quantas vezes esquecemos das responsabilidades decorrentes do fato de que nós somos dEle!

Comunhão Restaurada (6:3-10)

Mais uma vez ela está feliz na presença do seu amado. Encontrou-o no jardim, alimentando seus rebanhos entre os lírios, e tudo mudou. Antes ela falava muito. Falava de si mesma (5:2-5), e falava dele (5:10-16). Mas agora é ele quem fala (6:4-9). Quão doces são aquelas horas na presença do nosso Amado, quando as palavras nos faltam e, felizes, escutamos Sua voz.

E não são palavras de repreensão! Ele fala das belezas e perfeições dela, e do amor que ele tem por ela. Sem dúvida, são palavras figuradas que mostram o amor que nosso Amado tem por Sua igreja, levando-nos a almejar aquele dia quando Ele há de apresentar a Si mesmo uma “igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef. 5:27).

Naquele dia seremos para “louvor da Sua glória” (Ef. 1:14), e para a demonstração das “abundantes riquezas da Sua graça” (Ef. 2:7). Que possamos dar-Lhe mais e mais desta alegria agora, através de vidas em comunhão com Ele, que refletem as abundantes riquezas da Sua graça e redundam para Sua glória.

R. E. Watterson