Início O Caminho Semente misturada (III)
Semente misturada (III) Imprimir E-mail

"O Caminho" nº17

“Não te vestirás de estofo de lã e de linho juntamente” (Deut. 22:11).

Geralmente, numa série de comparações ou parábolas, a última é mais difícil de interpretar. Isto é verificado em Mat. 13, onde o Senhor interpretou as primeiras parábolas, e assim nos deu a “chave” com que podemos interpretar as demais. Mesmo com esta ajuda, não é sempre fácil, e há várias interpretações daquelas últimas parábolas! Assim é o versículo que estamos considerando, e queremos simplesmente oferecer alguns pensamentos que podem estimular mais meditação neste trecho da Palavra de Deus. Uma coisa é certa, este versículo tem aplicação espiritual para a igreja (Rom. 15:4).

Mais uma vez, é importante observar que nesta lei o Senhor não estava mostrando Sua preferência por lã ou por linho. Era a mistura dos dois em uma mesma roupa que Ele rejeitou. Junto com os dois versículos anteriores, temos um cordão de três dobras que não se rebenta com facilidade” (Ec. 4:12), que nos ensina uma lição importantíssima para nossos dias: nosso Deus odeia misturas.

No sentido geral, o assunto de roupa é muito importante nas Escrituras, desde Gênesis até Apocalipse. Podemos observar que, naqueles tempos, a roupa era fabricada principalmente de lã, linho, e peles de animais. De Prov. 31:13, 21-25, podemos aprender que era o dever das esposas fazer a roupa para sua família, e que lã era usada para o tempo do frio, no inverno, e o linho para roupa mais fina, usada em tempo de calor ou para ocasiões especiais, como casamentos.

Pensando no lado prático, roupa feita de lã e linho seria “nem frio, nem quente”, e seria mais para chamar atenção do que para o conforto do dono. Deus ainda quer simplicidade e praticidade na roupa do Seu povo (I Tim. 2:9; I Ped. 3:3). Geralmente as irmãs “sofrem” bastante neste sentido, mas o ensino é para os homens também! Todos temos de evitar a vaidade do mundo, não procurando chamar a atenção dos outros pela roupa, cabelos, enfeites, etc, que usamos. Se Deus nos criou menos coloridos do que outras das Suas criaturas, devemos aceitar que assim é a Sua vontade! Mais uma observação neste lado prático. Quando Adão e Eva inventaram a “roupa”, lemos que fizeram só “cintas” (Gên. 3:7), mas quando Deus os vestiu, Ele não somente mudou o material, também mudou o tamanho da roupa deles, porque foi com “vestimenta”, e não cintas, que Ele os vestiu (Gên. 3:21). Assim aprendemos que nossa roupa deve cobrir o corpo, e não deve ser como o mundo usa, ainda preferindo as “cintas” de Adão e Eva.

Agora, pensando no lado espiritual e procurando descobrir a aplicação desta lei, podemos primeiramente lembrar que, na Bíblia, roupa fala de justificação. O exemplo já citado de Adão e Eva mostra como aquelas cintas de folhas fabricadas pelas suas próprias mãos não serviam para Deus, não somente por causa do tamanho, mas por causa de representar os esforços deles em se preparar para a presença de Deus. As folhas nunca podiam servir como preparação, era necessário haver derramamento de sangue. A vítima inocente deu sua vida para a justificação do casal pecador, assim ilustrando a obra da redenção que Cristo fez na cruz por nós. Em Is. 61:10 lemos: “Deus me cobriu de vestes de salvação, e me envolveu com o manto de justiça”. O homem na parábola das bodas (Mat. 22:11), embora dentro da sala do banquete, não possuia o principal, a veste nupcial, e por isso foi lançado fora. Isto nos fala da possibilidade solene de sermos associados com os salvos, e de até participar com eles nas coisas do Senhor, sem receber a justificação mediante a fé em Cristo. Também, o filho pródigo, quando voltou arrependido, recebeu a melhor roupa (Luc. 15:22), ilustrando o prazer de Deus em perdoar e justificar o pecador arrependido.

Assim podemos pensar que lã e linho representam dois tipos de justiça que nunca devemos misturar ou confundir. A lã nos lembra do sacrifício e sofrimento do Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, perante os Seus “tosquiadores” (Is. 53:7); e o linho nos lembra da Sua glória (Êx. 28:1-5) e da glória futura da igreja; “porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos” (veja Apoc. 19:7, 8, 14).

Desta consideração chegamos à conclusão que lã fala da justiça imputada baseada no sacrifício de Cristo, e o linho fala da justiça adquirida baseada nas obras dos salvos. Em palavras mais simples, a lã fala da salvação que recebemos em Cristo, de graça e independentemente das nossas obras, e que nos prepara para a presença de Deus. O linho fala do galardão que o salvo pode receber no céu, mas isto depende do nosso esforço em servir fielmente ao Senhor. A religião tem misturado a “lã” e o “linho”, e milhares de pessoas hoje ainda procuram fabricar a sua salvação pelas suas obras, não dando valor à roupa de “lã” que Deus oferece de graça, e que custou a vida e o sangue do Seu amado Filho. Tal mistura é perigosíssima, e por isto é proibida por Deus.

Infelizmente há alguns, mesmo entre os salvos, que desprezam qualquer ensino sobre o galardão. Eles dizem: “Só quero estar no céu, e nada mais”. De fato, e não queremos negar, o principal é saber que estaremos no céu. Também concordamos que nunca devemos pensar naquela glória duma maneira orgulhosa, como Tiago e João, quando pediram os lugares mais altos com Cristo no reino (Marcos 10:35-40). Contudo, por outro lado, seria um desastre eterno esquecer dos muitos ensinos sobre o galardão (Mat. 25:14-30; Luc. 19:11-26; I Cor. 3:12-15; II Cor. 5:9-10; II Tim. 4:8; II João v. 8, etc). Se Cristo falava do galardão, se Moisés contemplava o galardão (Heb. 11:26), e se os apóstolos escreviam do galardão, será que alguém entre nós pode esquecer dele?

Antigamente (e até hoje, em certos lugares), as moças teciam a sua própria roupa linda, para o dia do casamento. Uma meditação de Apoc. 19:8 revelará que é exatamente isto que estamos fazendo agora! Sim, o mais importante é ter a “roupa de lã”, que é a salvação que há em Cristo, mas não podemos esquecer também do “linho finíssimo” que Ele dará aos fiéis naquele dia. “Filhinhos, agora, pois, permanecei nEle, para que, quando Ele se manifestar, tenhamos confiança, e dEle não nos afastemos envergonhados na Sua vinda” (I João 2:28).

Que esta meditação de Deut. 22:9-11 possa nos ajudar a entender que nosso Deus não quer mistura entre Seu povo. Que possamos semear a Sua Palavra sem mistura, servir ao Senhor sem jugo desigual, e nunca confundir as duas preparações, a salvação e o galardão.

S. R. Davidson