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O Discipulado Cristão (V) Imprimir E-mail

"O Caminho" nº17

IV — O Custo do Discipulado (Jo 15:18-20).

A salvação é absolutamente gratuita, mas o discipulado tem um preço altíssimo. Como já vimos, não pode ser discípulo quem não esteja disposto a pagar o preço. Vejamos quais são os elementos do custo do discipulado cristão.

1. O custo de separação do mundo (Jo 15:18-20).

Para bem entendermos este elemento do custo do discipulado, precisamos definir qual dos vários sentidos da palavra “mundo” está em vista aqui, uma vez que este vocábulo aparece em outros contextos com sentidos diferentes.

a) Não se trata do globo terrestre. Este é maravilhoso, como diz o Sl 19:1-4: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das Suas mãos. Um dia discursa outro dia e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som: no entanto por toda terra se faz ouvir as suas palavras até aos confins do mundo”. É uma suprema demonstração da glória do Criador. Diz a palavra: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos humanas” (At 17:24). E: “Os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a Sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo, sendo percebidas por meio das cousas que foram criadas” (Rm 1:20).

b) Não se trata da humanidade. Quando lemos, em João 3:16, que “Deus amou ao mundo”, em I João 2:2, que Cristo é a “propiciação pelos pecados do mundo inteiro”, ou em I João 4:14, que “Deus enviou Seu Filho como Salvador do mundo”, não devemos entender que este é o mundo do qual devemos nos separar. A esse mundo Deus amou e por ele entregou Seu Filho à morte. O Senhor nos envia ao mundo geográfico a fim de pregarmos as boas novas de salvação e perdão ao mundo das pessoas, às quais Deus ama.

c) Trata-se do sistema de rebelião a Deus, comandado por Satanás. Ele é o chefe e o propulsor deste sistema de rebelião a Deus e à Sua vontade. Cristo disse: “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso” (Jo 12:31). Lemos, ainda, que os que estão sem Cristo andam “segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2:2).

Esse é o mundo do qual o discípulo cristão deve separar-se. Com respeito a esse sistema diabólico, a essa ordem corrupta e rebelde, a Palavra de Deus ordena: “Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade do Pai, permanece eternamente” (I Jo 2:15-17). Esse é o mundo ao qual pertencem todos quantos não são discípulos e ao qual pertencíamos todos nós antes da nossa conversão. Diz a Palavra: “Entre os quais (filhos da desobediência) todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira como também os demais” (Ef 2:3).

Porém, uma vez convertidos e feitos discípulos de Cristo, o Mestre exige o nosso corte de relações com o mundo. Ele não admite concorrência: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de de aborrecer-se de um e amar o outro; ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6:24). O discípulo precisa compreender que o Mestre o chamou para separar-se do mundo. Suas palavras são bem claras: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, eu dele vos escolhi, por isso o mundo vos odeia” (Jo 15:19). O mundo sempre esteve e sempre estará em oposição a Deus e quem quiser viver em harmonia com Deus tem de cortar as relações com o mundo. A Bíblia diz: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4:4). O discípulo de Jesus Cristo tem de ser diferente das outras pessoas em sua maneira de pensar e viver. Essa diferença é a marca do discípulado. No Velho Testamento os servos de Deus destacaram-se dos demais em sua geração, precisamente por levarem aquela marca. Noé viveu numa geração cruel e perversa, cujo “desígnio do coração era continuamente mau”, mas a referência ao seu nome mostra a marca que o diferenciava dos demais: “Eis a história de Noé: Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé anadava com Deus” (Gn 6:5-9). Na longa lista de genealogias de Gênesis 5, a monotonia é quebrada pela marca do caráter piedoso de Enoque: “Andou Enoque com Deus, e já não era porque Deus o tomou para Si” (Gn 5:21-24). Abraão, Jeremias e outros servos de Deus do Antigo Testamento e do Novo, mostraram aquela marca, que teve a sua culminância na vida do nosso Mestre. Como Seus discípulos, temos de seguir o Seu exemplo. As ambições de lucro desmedido, conforto material, honra, prazeres carnais, a linguagem suja, as vestes indecentes, escandalosas, provocantes, a deslealdade para com o próximo, o convívio com a desonestidade e a imoralidade constituem-se na marca reconhecida do mundo que jaz no maligno, mas não podem ser a marca do discípulo de Cristo.

Não podemos concordar com os que dizem que estas coisas exteriores não devem ser consideradas porque muita gente que parece “direitinha” por fora guarda muita sujeira no coração. Embora não podemos negar que as aparências muitas vezes enganam, não podemos basear-nos nisto para justificar uma situação realmente anormal. Deus julgará os enganadores que apresentam uma falsa santidade, mas não vamos nós justificar os que são reconhecidos carnais e mundanos por causa dos hipócritas a quem, geralmente, não conhecemos. A verdade é que o discípulo que ama o Mestre e quer agradar-lhe em tudo, procura evitar tudo quanto possa trazer prejuizo moral, material ou espiritual a si mesmo ou ao seu semelhante, seja ele quem for. A Bíblia nos ordena: “Abstende-vos de toda forma de mal” (I Ts 5:22).

Não é fácil ser discípulo num mundo tão cheio de atrações, mas quem não quiser abandoná-lo não pode ser discípulo do Senhor Jesus. Ele não engana a ninguém, mas deixa bem claro que não abre mão das Suas exigências. Portanto, quem quiser segui-Lo, inclua este elemento no custo — a separação do mundo.

2. O custo do sofrimento.

a) Disposição para sofrer o que o Mestre sofreu. Quem se separa do mundo fica sujeito ao ódio e perseguição deste: “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, eu dele vos escolhi, por isso o mundo vos odeia”. Paulo diz que “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus, serão perseguidos” (II Tm 3:12).

b) Discernir o verdadeiro significado da “cruz”. Ao discípulo é oferecida uma cruz. Que cruz é essa? É a identificação com Cristo em tudo que a cruz representa para Ele: rejeição, perseguição, zombaria, dor e morte. É sofrer, ou correr o risco de sofrer, tudo isso pela causa do Nome de Cristo. A cruz de Cristo acarreta um drástico corte de relações entre o discípulo e o mundo, do qual resultam mútua crucificação e mútua morte: “Longe de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6:14).

c) Aceitar a cruz como uma conseqüência do discipulado. O discípulo deve reconhecer que a sua identificação com o seu Mestre pode resultar em sofrimento. Embora os discípulos de hoje sofram em maior ou menor medida pelo Nome de Cristo, podemos dizer que não sofremos agora como têm sofrido nossos irmãos em tempos passados e, comparativamente o sofrimento de hoje nem pode ser considerado como tal. Mas deve-se esperar que tal sofrimento chegue e, se chegar, não é para ser recebido com supresa: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma cousa extraordinária vos estivesse acontecendo...” (I Pe 4:12).

d) Aceitar a cruz não com mera resignação, mas com calma e alegria. “Ora, quem é que há de vos maltratar se fordes zelosos do que é bom? Mas ainda que venhais a sofrer por causa da justiça, bem-aventurados sois. Não vos amedronteis, pois, com as suas ameaças, nem fiqueis alarmados” (I Pe 4:13-14). Não há por que nos acovardar ante o sofrimento, principalmente se considerarmos tudo o que Ele sofreu por nós. Nossos sofrimentos nunca seriam demais, se fossem comparados aos dEle.

Mas o discípulo não tem de aceitar o sofrimento com uma passividade pesarosa, mas com alegria pelo privilégio de honrar a seu Senhor: “...Pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também na revelação da Sua glória vos alegreis exultando. Se pelo Nome de Cristo sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória de Deus. Não sofra, porém nenhum de vós como assassino, ou ladrão, ou malfeitor, ou como alguém que se intromete em negócio de outrem; mas se sofrer como cristão, não se envergonhe disso, antes glorifique a Deus com esse nome” (I Pe 4:13-15). Sofrer pelo Nome de Cristo não é uma vergonha, mas uma honra! No início da história da igreja os discípulos consideravam os sofrimentos por amor de Cristo uma honrosa bem-aventurança. Diante das ameaças, pediam forças ao Senhor para serem-Lhe sempre leais: “Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos Teus servos que anunciem com toda intrepidez a Tua Palavra...” (At 4:29). Por outro lado, quando açoitados, regozijaram-se por sentirem-se honrados em sofrer pelo seu Mestre: “E eles se retiraram do Sinédrio, regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afronta por esse Nome” (At 5:41).

3. O custo da renúncia (Lc 14:25-33).

a) Pleno reconhecimento do senhorio de Cristo. O verdadeiro discípulo tem de confessar a Cristo como Senhor. A Palavra ordena: “Santificai a Cristo como Senhor em vossos corações” (I Pe 3:15). Paulo nos conta como ele fez isto: “…Considero tudo como perda pela sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor” (Fp 3:8). Isto implica em absoluta lealdade ao Mestre. Ele diz: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra…” (Jo 14:23). Nossa resposta ao Mestre deve ser a de Paulo, em At 20:24: “Em nada considero a minha vida como preciosa para mim mesmo, contanto que complete com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar do Evangelho da graça de Deus”. Notemos bem: Cristo tem de ser Senhor de tudo, ou não será Senhor de nada!

b) Supremo amor. Conforme o versículo 26, o amor do discípulo ao Mestre deve estar acima dos mais estreitos laços de família, como pai e mãe, esposa, filhos e irmãos. Não é que ele tenha de repudiar a sua parentela, e, sim, que o seu amor pelo Mestre em comparação com o amor que tem pelos demais pareça ódio. Nenhum parentesco, por íntimo que seja, pode interferir no amor do discípulo pelo seu Mestre.

c) Suprema determinação. Assim como quem quer construir um edifício deve calcular o custo da obra antes de iniciar a construção para não ficar exposto ao ridículo por não poder concluí-la; assim como um rei não cometeria a imprudência de sair para a guerra sem contar os seus homens e avaliar as suas possibilidades, aquele que quer seguir a Cristo deve também avaliar o custo da sua decisão. Só é verdadeiro discípulo aquele que, depois de considerar as suas perdas, lutas e sofrimentos, diz resolutamente: “Senhor, anelo a Ti seguir/ E sempre a cruz levar,/ De dia em dia amar-Te a Ti,/ Viver pra Te agradar”. O discipulado é uma opção que tem de ser feita após madura reflexão, com pleno conhecimento das suas implicações. O discípulo tem de estar disposto a seguir a carreira apesar do seu alto custo.

d) Suprema rendição. O verdadeiro discípulo tem de render-se integralmente ao Mestre. Nem ele se pertence mais, nem quaisquer das suas possessões. Tudo pertence ao Mestre. Quem não renuncia tudo não pode ser Seu discípulo. Ele tem de negar-se a si mesmo, deixando-se absorver totalmente em Cristo, de tal modo que Cristo esteja vivendo a Sua vida nele. Paulo assim explica esta experiência: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2:19-20). Diz mais: “… Com toda ousadia, como sempre, também agora será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Porquanto para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fp 1:20-21).

L. Soares