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As habitações de Deus em Êxodo Imprimir E-mail

"O Caminho" nº17

O livro de Gênesis mostra o homem andando com Deus. Tanto Enoque (5:22) quanto Noé (6:9) são descritos como tendo “andado com Deus”. Abraão e os outros patriarcas não tinham lugar neste mundo. Confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra (Heb. 11:13). Reconheceram que, devido à entrada do pecado neste mundo, Deus não tinha lugar aqui, e estavam preparados a colocarem-se junto com Ele, separados do mundo.

O livro de Êxodo é o livro onde Deus mostra que pode habitar conosco, mas somente baseado na redenção. Há quatro ocasiões em que Deus revela-Se em Êxodo, em quatro lugares diferentes.

1. Na Sarça — Para Livrar (Êx. 3)

Os quatrocentos anos em que Israel ficaria peregrino em terra estranha, conforme Deus revelara a Abraão (Gên. 15:13; Atos 7:6), estavam terminando. Deus se manifesta para livrar Israel. Assim como no Calvário, foi através de uma árvore, uma sarça que ardia e não se consumia. Não era uma figura apropriada da condição de Israel no Egito? O fogo da perseguição ardia contra eles, mas eles não eram consumidos, apesar dos esforços de Faraó para destrui-los. É também uma figura do Calvário, onde o fogo de Deus ardeu mas foi consumido pelo Senhor, para que nós não conhecêssemos o juízo de Deus. Na sarça, Deus se revela como o “Eu Sou”, o Deus eterno, uma expressão usada também do Senhor Jesus, e por Ele, no Evangelho segundo João. Ele é o “Eu Sou” que veio nos livrar.

Três coisas são evidentes na Divindade:

a) Onisciência — tudo sabendo;
b) Onipresença — em todo lugar;
c) Onipotência — todo o poder.

Estas coisas são vistas em Cristo no Evangelho segundo João:

a) João 13:19, relacionado à traição de Judas. O Senhor o revelou de antemão aos Seus discípulos para que eles pudessem crer que Ele é o “Eu Sou”.

b) Na terceira de quatro orações na noite antes da Sua crucificação, em João 17:24, Ele diz: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória”. Repare que é, literalmente, “onde eu estou”, não “onde eu estarei”. Neste momento o Senhor Jesus estava em algum lugar entre o cenáculo e o Jardim de Getsêmani, mas Ele fala de estar no céu, assim como no v. 11, ao dizer: “Eu já não estou mais no mundo”. Em João 1:18 Ele está sempre no seio do Pai, como o Filho unigênito. Em João 3:13 Ele está no céu como o Fiho do Homem, apesar de estar em Jerusalém conversando com Nicodemos. O Senhor Jesus sempre foi onipresente.

c) Sua onipotência é muito evidente em João 18:5-6. A menção do “Eu Sou” é suficiente para fazer com que aqueles que vieram prendê-lo recuassem e caíssem por terra diante dEle. No Evangelho segundo João, são estes que estão prostrados no Getsêmani, não Cristo.

Estas três características podem ser vistas várias vezes neste Evangelho.

Da sarça, Deus vai mostrar a Moisés que o livramento é uma obra divina (v. 7-8). Ele viu e ouviu seu clamor, Ele conhece suas aflições, e Ele veio livrá-los — não só para tirá-los, mas para levá-los a uma terra boa e ampla; nossa salvação tem as mesmas características.

2. Na Nuvem — Para Dirigir (13:20-22)

Assim que os filhos de Israel foram redimidos, Deus lhes dá a coluna de nuvem “para os guiar e … para os alumiar” (v. 21). Esta coluna de nuvem é uma figura apropriada do Espírito Santo que, mesmo sem o pedirmos, é nos dado na nossa conversão, Ef. 1:13. A coluna de nuvem não foi retirada deles apesar de todas as suas falhas, lembrando-nos das palavras do Senhor Jesus, que disse: “E Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (João 14:16). Somente o Senhor Jesus ora “pelo” Espírito Santo; nós oramos “no Espírito” (Judas v. 20). Veja quanto o pentecostalismo moderno tem errado por desejar buscar o espetacular.

Esta entrega da coluna de nuvem é vista em I Cor. 10:2 como um batismo: “E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar”. Este batismo veio antes do batismo em água (no mar), e fala daquele batismo no Espírito que ocorreu no dia de Pentecostes, e foi um ato único. Eu me tornei participante dele no instante da minha conversão. O batismo em água veio depois.

O Senhor não nos deixa aos nossos próprios cuidados uma vez que somos salvos. Ele tem feito provisão para todas nossas necessidades dando-nos o Espírito Santo. Em Êx. 13 temos Deus conosco na nuvem dirigindo (veja Num. 33). No cap. 14 temos Deus por nós no mar. Se houve uma libertação pelo sangue na noite da páscoa, o cap. 14 fala de uma libertação por poder.

Portanto, vemos que a coluna de nuvem veio com a redenção, sem ser buscada, e permaneceria com eles sempre; uma figura apropriada do Espírito Santo.

3. No Monte — Para Disciplinar (Êx. 19 e 20)

Um povo redimido, guiado pelo Espírito Santo, carecem também da autoridade da Palavra de Deus para discipliná-los. Quando a graça de Deus veio a nós não foi meramente para nos salvar, mas para ensinar-nos que, renunciando à impiedade a às concupiscências mundanas, devemos viver neste presente século sóbria, e justa, e piamente (Tito 2:12). A palavra aqui traduzida “ensinando” significa corrigir pela disciplina, educar. Um cristão não pode viver para si, mas para Deus, e Ele revela-nos Sua vontade para nós na Sua Palavra.

No monte, Deus veio corrigir o andar do povo (caps. 19-24) e também sua adoração (caps. 25-40). Pois ambas estas verdades são apresentadas do monte. Primeiro irão receber os mandamentos para regular sua vida moral, nos caps. 19 e 20. Depois, recebem os mandamentos para regular sua vida social, caps. 21-23. Segue-se então o ensino do Tabernáculo, o lugar de reunião ao Seu nome. Como em I Coríntios, a prática vem antes do centro de reunião; I Cor. caps. 1-10, prática; caps. 11-16, reunidos como igreja.

Quanto aos mandamentos, foram transmitidos primeiramente pelo Senhor, trazendo temor ao povo. Se percebemos a voz do Senhor na Sua Palavra, certamente iríamos temer ao Senhor.

É só no cap. 31:18 que os mandamentos foram escritos pelo dedo de Deus em tábuas de pedra. A lei era como as pedras nas quais foi escrita — dura, fria, não maleável. Foram quebradas quando Moisés descia do monte, devido ao bezerro de ouro feito por Arão. Não é a toa que Moisés quebrou as tábuas antes de entrar no arraial. Se ele tivesse entrado com uma lei inteira no arraial, bem mais do que os três mil (32:28) teriam morrido. Obediência à Palavra de Deus fez com que três mil se convertessem no dia de Pentecostes.

4. No Tabernáculo — Para Habitar (40:34)

Quando Israel foi libertado do Egito, o desejo de Deus é que Faraó deixasse o povo ir caminho de três dias ao deserto para sacrificar ao Senhor seu Deus (3:18). Deus queria um povo redimido para ser adoradores. Para isto precisavam viajar três dias. Para seguirmos o caminho do Senhor Jesus, que da morte até a ressurreição teve uma viajem de três dias, precisamos nos associar com um homem que este mundo rejeitou e expulsou. Não podemos adorar em comunhão com o mundo. Faraó queria que eles adorassem no Egito (8:25), mas Moisés sabia que isto exigiria concessões, para que a adoração fosse aceitável perante o mundo. Muitos, hoje, rebaixam a adoração ao nível do mundo. Introduzem aquilo que agrada e atrai o mundo, mas fazem aquilo que não é aceitável diante de Deus. O Senhor Jesus mesmo ensinou que a única adoração aceitável é aquela que for em espírito e em verdade (João 4: 24). A adoração que atrairá este mundo é aquela promovida pelos falsos profetas, através do poder dos falsos espíritos, e o mundo os ouve (I João 4:1-6).

Mas se Deus os quer fora do mundo, Ele os quer ligados ao santuário. “E me farão um santuário, e habitarei no meio deles” (Êx. 25:8). Aquele santuário deve ser de acordo com todo o desígnio de Deus, pois é para Ele, não para mim. Moisés recebeu instruções verbais (25:1) e visuais (25:9). Era um santuário que não necessitava de acréscimos ou alterações. Deus sabia exatamente o que queria, e encontrou em Moisés um homem que satisfaria o desejo do Seu coração. Depois das instruções para o Tabernáculo, lemos oito vezes, enquanto o Tabernáculo era construído, que foi feito conforme o Senhor instruiu a Moisés (40:16-32). Foi para este lugar que o Senhor veio, e a glória do Senhor encheu o Tabernáculo (40:34). Esta é ainda a maneira como Deus encontra-se com os Seus. A promessa da presença do Senhor (Mat. 18:20) somente será desfrutada quando estivermos em obediência à Sua Palavra.

N. Melish