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O perigo das tradições Imprimir E-mail

"O Caminho" nº20

Um apelo para que, com sinceridade, possamos testar tudo unicamente pelo prumo da Palavra do Senhor.

Depois de consideração e oração, sentimos a necessidade de tocar num assunto que apareceu num bom artigo numa revista que chegou recentemente. O artigo tratou muito bem do perigo das influências modernas, e das maneiras usadas em muitos lugares hoje para louvar ao Senhor. Mas, ao mesmo tempo, o artigo revelou outro perigo que também existe, já há muito tempo, entre muitas igrejas “tradicionais”.

Em procurar esclarecer algumas coisas para nossos queridos irmãos, sabemos que nem todos irão gostar do que escrevemos, mas é com mais preocupação para com os mais novos na fé que humildemente mencionamos este assunto no espírito de Ef. 4:15, e procurando “seguir a verdade em amor”. Citamos agora uma frase que especialmente revelou o pensamento que nos preocupa: “Ao longo dos anos as igrejas chamadas tradicionais cresceram adotando em seus cultos um louvor bem moderado. Usavam-se instrumentos que levavam os fiéis a um enlevo espiritual, ouviam-se corais, conjuntos, solos, e durante os cultos um clima de louvor atraia os corações dos salvos, e muitas pessoas foram convertidas a Cristo em tais ocasiões”.

Isto é plena verdade, mas agora temos que perguntar se foi esta a vontade de Deus? Em primeiro lugar chamamos atenção à frase “igrejas tradicionais”, e perguntamos se sua tradição é baseada nos exemplos Bíblicos ou nas tradições de homens que, ao longo dos anos, adotaram inovações no culto das igrejas? Certamente as “igrejas tradicionais”, no sentido exato da palavra, são as igrejas mencionadas no Novo Testamento, e como o escritor confessa ao usar as palavras “ao longo dos anos”, as igrejas do Novo Testamento não adotaram tais coisas. Então concluímos que as “igrejas tradicionais” do artigo estão seguindo as tradições de homens bons, mas não da Palavra de Deus.

Em segundo lugar, a frase citada traz a sugestão que é a música instrumental que completa o louvor ao Senhor. Isto pode ser interpretado como dizendo que se uma igreja não usa instrumentos musicais, então não tem o “enlevo espiritual”, e que sua adoração é incompleta. Conhecemos dezenas de igrejas locais em nossa região, e em outros lugares, que não adotam estas coisas, mas que louvam ao Senhor na maneira simples que Deus pediu (Ef. 5:19). Talvez este “enlevo” seja mais “emocional” do que “espiritual” (Ez. 33:30-33). O sentimentalismo tem seu lugar, mas não é um substituto para a obediência simples à Palavra de Deus. É notável que nos sacrifícios antigos o mel e o fermento foram proibidos (Lev. 2:11). O significado do fermento é bem conhecido, sendo figura do pecado, ou seja, o lado pior da carne. O mel fala da doçura humana, do melhor que a carne pode produzir. A igreja adora ao Senhor “em espírito e verdade, porque são estes que o Pai procura para Seus adoradores” (João 4:23-24). O “sem fermento” corresponde a “em verdade”, e o “sem mel” corresponde a “em espírito”, ou seja, sem a ajuda da carne, mesmo que seja bem refinada e doce.

É evidente do Velho Testamento que os instrumentos musicais foram adotados por Davi (II Sam. 6:5; I Crôn. 15:16; Amós 6:5) e se tornaram parte da cerimônia judaica, junto com outras coisas materiais que já existiam no Templo, como os sacrifícios de animais, incenso, etc. O cristianismo verdadeiro não é um judaísmo modificado, mas uma nova instrução, com seus princípios revelados aos apóstolos, e escritos nas cartas para a direção da igreja até a vinda de Cristo. Nossa responsabilidade é simplesmente seguir o padrão deixado para nós no Novo Testamento, sem deixar ou “adotar” mais nada. É exatamente aqui que vem a raiz deste problema que hoje tem se tornado a vergonha das seitas, e que merece a censura que recebeu no artigo citado. Contudo, a diferença entre as “igrejas tradicionais” e as do “louvor quente” é somente na distância que partiram do padrão do Novo Testamento. Seria justo o homem que roubou um real chamar de ladrão aquele que roubou dez reais? Também, muitos destes grupos nem sempre agiram assim. A tendência, quando começar o desvio, se não voltar, é geralmente ir mais longe da verdade.

Outra coisa que a frase citada sugere é que os instrumentos, corais, conjuntos, solos, etc, produzem muitas conversões. Certamente este é um pensamento muito comum hoje, e também é a razão declarada pela prática dos extremos que o artigo corretamente condenou. Dizem que “traz muitos resultados”, e que “muita gente vem ouvir a Palavra de Deus”. Nossa preocupação não deve ser com resultados. Nossa primeira responsabilidade é obedecer a Palavra de Deus (I Sam. 15:22), e deixar os resultados com Ele. O Dia vai mostrar os verdadeiros resultados. Noé, o pregador fiel, não viu muitos resultados, e ninguém além da sua família creu na mensagem que ele pregou. Mas Noé não é considerado uma falha, mas um herói da fé (Heb. 11:7), e certamente receberá o seu galardão como servo “bom e fiel”, apesar dos poucos resultados. Por outro lado, Jonas viu muito fruto em Níneve, mas nem aparece na lista dos heróis da fé em Hebreus 11. Também, Moisés teve bom resultado quando feriu a rocha pela segunda vez, pois saiu a água salvadora, mas Moisés perdeu o galardão pela sua desobediência à Palavra de Deus nesta ocasião (Núm. 20:2-12). O fato de que Deus usou os corvos para levar comida para Elias não os fez “limpos”. Deus pode usar até as nossas falhas para Sua glória, mas isto não justifica as nossas falhas.

Seria bom se os irmãos das “igrejas tradicionais” pensassem seriamente sobre qual seria o resultado se parassem com os “instrumentos, corais, conjuntos, solos”, etc. Já fizemos esta pergunta para alguns, e confessaram que com certeza perderiam a maior parte de suas congregações! Então, qual é o motivo destes se reunir? Será que são atraídos ao Senhor no meio, desejos de aprender da Sua Palavra? Quanto tempo e despesa é aplicado nestas coisas? E devemos lembrar que muitas vezes são as coisas “boas” que são os ladrões das coisas “excelentes” (Fil. 1:10). Muito do que nós consideramos necessário na igreja vem da tradição de homens bons. Praticamos as coisas porque sempre foi assim na nossa igreja. Os filhos seguem os costumes dos pais. Os que começaram aquele trabalho também trouxeram as suas tradições que aprenderam em outros lugares, e agora esta tradição é considerada parte da doutrina dos apóstolos; mas, de fato, nunca foi.

Amados irmãos, sejamos honestos e sinceros neste assunto, testando tudo pelo “prumo” da Palavra do Senhor. Que tenhamos a coragem para rejeitar tudo que não tem esta única autoridade.

S. R. Davidson