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"O Caminho" nº20

O corpo de Cristo

"Vós sois o corpo de Cristo ..." (I Cor. 12:27). O que significa este nome? Como ele se aplica  a uma igreja local?

Este nome é achado apenas nas cartas de Paulo, e provavelmente é menos entendido do que os outros nomes que já consideramos: “Filhos de Deus” e “Discípulos”. Contudo, este nome é muito importante nos dias em que a igreja está vivendo, e uma boa compreensão desta expressão nos guardará de muitos erros. Talvez pessoas ainda novas na fé têm uma certa dificuldade com a palavra “corpo” neste sentido. Não quer dizer o corpo físico de Cristo, mas o corpo de pessoas que pertencem a Cristo, que estão “em Cristo” espiritualmente pelo novo nascimento espiritual. Assim inclui todos os salvos, desde o começo da igreja até o arrebatamento da mesma. A palavra indica principalmente a unidade orgânica deste povo, baseado no fato de que o Espírito Santo habita nele e que é dirigido por Cristo, o Cabeça deste corpo. Antigamente o corpo era chamado, pelos ensinadores, “a igreja universal”, mas hoje, devido à seita que usa este nome, julgamos que seria melhor ficar simplesmente com a expressão “o corpo”, dando, quando necessário, explicações sobre o seu significado.

Embora este nome indica a igreja completa, de todos os salvos, também tem aplicação à igreja local, como Paulo o usa no versículo citado em I Cor. 12:27. Notamos aqui que ele não diz que a igreja em Corinto é “o corpo de Cristo”. mas “corpo de Cristo”, mostrando que aquela igreja local pertencia ao corpo dos salvos. Vamos agora considerar três aspectos deste assunto: o começo do corpo, o caráter do corpo, e contrastes entre o corpo e a igreja local.

O começo do corpo (I Cor. 12:13)

Este versículo ensina, não que os coríntios buscaram e receberam um batismo no Espírito Santo depois da sua conversão, mas que todos os salvos foram batizados em um corpo espiritual quando o Espírito Santo veio no dia de Pentecostes. Ele fala aqui do começo da Igreja como corpo espiritual de Cristo, conforme as promessas de Cristo (Mat. 16:18; João 14:26; 15:26; 16:13; Atos 1:4-5). Antes daquele dia não existia a Igreja, que nunca deve ser confundida com o povo de Israel (Atos 15:14; I Cor. 10:32).

De Ef. 1:20-23 e Ef. 2:16 aprendemos que o corpo só poderia começar a existir depois da morte, ressurreição e exaltação do Senhor Jesus Cristo, porque Ele Se tornou o “Cabeça” deste corpo quando foi exaltado.

Uma boa compreensão destes fatos nos guardará dos erros de procurar um batismo no Espírito Santo depois da nossa salvação, e também de pensar que a igreja deve guardar o sábado como a lei exigiu de Israel (Êx. 31:12-17).

O Caráter do Corpo

O corpo é “a plenitude de Cristo” (Ef. 1:23). Isto é, a expressão do Seu caráter. Este caráter deve ser manifestado pela igreja local, como parte daquele corpo.

a) Como “habitação do Espírito Santo” (Ef. 2:16, 22), o corpo reflete a pureza de Cristo, e isto deve ser evidente na igreja local (II Cor. 6:16-18; 7:1).

b) Como corpo de membros a igreja participa na obra de Cristo (Ef. 4:11-12) e assim, como no corpo humano, cada membro duma igreja local tem a sua responsabilidade de desempenhar o seu serviço para o Senhor (I Cor. 12:15-27).

c) O corpo é submisso ao Cabeça, Cristo (Ef. 5:24, 29-30; Col. 1:18), e assim na igreja local não há chefe humano, mas todos procuram se submeter ao Senhor e à Sua Palavra. Esta Palavra reconhece a liderança de homens espirituais em cada igreja local, constituídos pelo Espírito Santo e chamados “presbíteros e diáconos” (Fil. 1:1), e exorta a igreja a respeitar esta liderança (I Tess. 5:12-13; Hb. 13:17).

d) Haverá sofrimento no corpo enquanto estamos na terra (Col. 1:24) e, como Paulo, devemos participar neste sofrimento pela causa de Cristo, quando for necessário, com alegria e coragem.

e) “Há somente um corpo” (Ef. 4:3-4), e assim não deve haver divisão, mas sim unidade na igreja local (I Cor. 12:25). Há sempre a necessidade de humildade e perdão entre os membros do corpo (Col. 3:12-15). Pelo fato de ainda termos a carne, há falhas nos membros, mas não no Cabeça. Precisamos do esforço para manter a unidade que existe espiritualmente entre todos os salvos.

f) Deve haver crescimento no corpo e na igreja local (Col. 2:19). Este crescimento é numérico e também espiritual.

Uma boa compreensão e prática destas coisas nos guardará dos erros de mundanismo e carnalidade que estão crescendo rapidamente no “cristianismo” hoje.

Contrastes entre o corpo e a igreja local

Daquilo que já mencionamos será evidente que há muito em comum entre o corpo e a igreja local. Contudo não é correto dizer que a igreja local é uma “miniatura” do corpo. Há diferenças fundamentais que não podemos esquecer.

a) Entrada. Entramos no corpo pelo novo nascimento. Entramos na comunhão duma igreja local pela recepção. O normal é que o novo convertido, já parte do corpo, procure o batismo em água e também comunhão numa igreja local, onde possa servir ao Senhor junto com outros irmãos (Atos 2:41-42). Este ato de recepção à comunhão é mútuo e com convicção sobre a doutrina dos apóstolos, e nunca deve ser feito por conveniência. Uma pessoa fingida pode ser recebida numa igreja local, mas isto não a fará membro do corpo (Atos 8:9-13; Judas 4).

b) Composição. No corpo não existe diferença por causa de raça ou sexo (Gál. 3:28). Contudo na ordem duma igreja local existe grande diferença entre o serviço dos homens e das mulheres (I Tim. 2:11-12).

c) Exclusão. Depois do novo nascimento, apesar das exigências do Senhor sobre a santidade (Rom. 6:1-14), nenhum membro será expulso do corpo, mesmo se pecar (Rom. 8:1). Contudo, na ordem duma igreja local o irmão que vive pecando tem que ser expulso da comunhão (I Cor. 5:11-13) até que haja provas de arrependimento genuíno (II Cor. 2:5-11). A exortação “nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor” (I Cor. 4:5) trata do julgamento dos motivos e da fidelidade dos servos de Deus (vs. 1-4), e não daqueles que pecam.

d) Durabilidade. Nada pode acabar com o corpo de Cristo (Mat. 16:18), mas o pecado e os ataques satânicos podem terminar a existência duma igreja local na terra (Apoc. 2:5).

Uma boa compreensão destas diferenças nos guardará dos erros mais sutis que podem infiltrar as igrejas, onde pessoas não salvas são recebidas precipitadamente à comunhão, as irmãs procuram fazer o trabalho dos homens, e não há disciplina na igreja.

S. R. Davidson (continuará)